Tão Doce o Seu Sabor

“Um homem, viajando pelo campo, encontrou um tigre. Ele correu, com o tigre em seu encalço. Aproximando-se de um precipício, tomou as raízes expostas de uma vinha selvagem em suas mãos e pendurou-se na beira do abismo. O tigre o farejava acima. Tremendo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre a esperá-lo. Apenas a vinha o sustinha. Mas, ao olhar para a planta, viu dois ratos, um negro e outro branco, roendo aos poucos sua raiz. Nesse momento, seus olhos perceberam um belo morango vicejando perto.
Segurando a vinha com uma mão, ele pegou o morango com a outra e o comeu.
— Tão doce o seu sabor.”

As minhas obras nascem da recusa em aceitar uma vida domesticada. Trabalho sobre a violência subtil de crescer, sobre o apagamento da criança que fomos e sobre tudo o que a sociedade nos obriga a enterrar para parecermos funcionais. O que faço é uma tentativa de reabrir essa ferida.
Através da fotografia, da colagem, da pintura, da escrita e da justaposição de símbolos, construo imagens onde a inocência é contaminada, a memória é distorcida e a realidade é empurrada para um território instável. O meu universo vive entre o grotesco e o lúdico, o poético e o corrosivo, o belo e o desconfortável. Interessa-me essa fricção — o momento em que o observador deixa de olhar de forma passiva e é obrigado a confrontar aquilo que preferia esquecer.
A criança perdida em cada um de nós não morreu. Foi reprimida, moldada, mutilada, mas continua ali — feroz, confusa, insubmissa. É essa presença fantasma que atravessa o meu trabalho. Não procuro decorar o mundo. Procuro expor a sua fratura.
Tal como o homem suspenso entre dois tigres, vivemos entre forças que nos devoram. Ainda assim, insistimos em provar o morango. O meu trabalho existe nesse gesto: um ato de resistência, prazer e sabotagem perante um sistema que tenta transformar tudo em obediência.

José das Neves

Horário
11 a 31 de julho 2026

Contactos
936 946 845  (quarta a domingo, 15h/20h)